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Nem por um minuto.



Eu segurava meu cigarro recém aceso em minha mão direita e o olhava como nos velhos tempos, ele estava por cima de mim com seu braço esquerdo apoiado na cama e retribuindo com o mesmo olhar, porém ele estava um pouco inclinado em cima de mim, o que acabara de acontecer antes era o que vinhamos fazendo todas vezes que nos encontrávamos, era quase que um mal necessário por mais que não pudesse, meu cigarro ia se esvaindo e a fumaça ia se misturando entre nossos cheiros, o silêncio não era incomodo, porém tinha que lhe falar o que viera fazer. As vezes me sinto culpada por apenas procurá-lo quando preciso, porém não era algo tão ruim se ele estava disposto a isso, sabia que ele não me procuraria como antes, se é que um dia ele chegou realmente a me procurar de verdade, acho que sim.  E então não tirei os olhos dele, eu me afogava constantemente em seus olhos cor de mel quase esverdeados, e não hesitei em falar:
"Começo assim mesmo, com trecho de CFA 'eu tenho uma porção de coisas para te dizer, dessas coisas assim que não se dizem costumeiramente, dessas coisas tão difíceis de serem ditas que geralmente ficam caladas, porque nunca se sabem como serão ditas e nem como serão ouvidas", parabéns primeiramente pela paternidade que lhe aguarda no próximo ano, fiquei feliz de verdade, mas foi uma verdade que doeu no meu âmago, você me compreende? Não era algo inesperado e acredito que até demorou pra que isso acontecesse e sei no fundo do meu coração que você será um ótimo pai, - traguei mais um pouco e passei a mão pelo seu rosto e ele consentia calado -. Antes de vir aqui hoje, pensei em você na terça-feira, eu reli as cartas que te escrevi e nunca entreguei e relembrei dos nossos breves encontros e em principal da nossa crise, foi engraçado - ri baixo -, porque de alguma forma volto pra você, mas isso não é uma novidade certo? O que me traz aqui hoje são aquelas velhas crises, mas só de estar na tua presença eu me perco nos devaneios que venho lhe contar. Então, eu ando perdida mais uma vez, não que eu tenha me encontrado antes, mas são aquelas coisinhas bobas de regredir e ir em frente em algumas situações, acho que talvez seja as responsabilidades crescendo e tu sabes que as minhas formas de lidar com isso são das piores maneiras, não sei. Quase ainda agora antes de estar aqui coloquei uma porção de anotações em minha agenda, acredite, umas coisas absurdas, como estudar e outras de como devo ser daqui pra frente, mas o que está me atormentando dessa vez, é que eu estou num impasse do que quero fazer e do que é certo fazer, você já passou por isso não é? Então, é sempre difícil fazer essa escolha, no fundo mesmo eu sei o que é certo, sei das instruções do que fazer e como fazer, porem eu procuro uma desculpa pra não fazer, as coisas vem piorando ou se embolando de uma maneira que eu já nem sei mais, acho que nunca soube, na verdade, nunca sei, - confirmo com a cabeça o que ele pergunta e coloco minha mão na testa e pela primeira vez desvio meu olhar do seu fechando meus olhos e abro logo depois, e ele continua a me encarar de uma forma meio que suave - sim, ainda sobre o presente que ganhei, e sim, eu também pensei que tinha aprendido a lidar, mas voltando a frisar as coisas foram se embolando, é eu sei - confirmei mais uma vez com a cabeça- mas o que eu posso fazer?! Eu to confusa, e eu sei que eu que piorei as coisas, que devia fazer aquilo e isso, não me olha sim, nesse tom de reprovação, eu sei que no fundo tu entende tudo isso que te falo, - ele pergunta mais uma vez, permaneço calada, -  não sei, de verdade. Não me faz essas perguntas, não sei o que mais te falar sobre isso, tu já sabe de tudo, eu só queria tu me ouvisse, por mais que eu venha sempre com a mesma ladainha, gosto quando tu me escuta, só isso. Outra coisa que quero te falar, e acho que nunca disse pra ti mas que, aprendi recentemente e me escuta com atenção, você me transborda de todas as formas inacreditáveis, transborda todos os meus jeitos, de defeitos e qualidades quando brigo e te amo ao mesmo tempo e por mais eu pareça mais raivosa quando falo contigo não é nada além de birra, guarda contigo isso, ouve quantas vezes quiser e nem por um minuto duvide disso, por mais que eu chegue lá na frente e retire o que disse, isso é teu de alguma forma - permaneço encarando o mesmo, e ele sorri com os olhos da maneira que eu mais gosto - e te amo, assim intensamente, devagarinho, desistindo e voltando. Obrigado pelos ouvidos mais que cansados de  minhas ladainhas, pela presença ausente e constante, vai e volta. Permanece." 

Ele desabou por cima de mim devido ao seu braço cansado de tanto apoiar, beijou meu ombro nu e sorriu, pude sentir. Thomas era umas das pessoas mais indecifráveis que eu podia ter na minha vida, eu nunca sabia realmente o que eu sentia por ele, mas eu sabia que ele era pra sempre desde quando resolveu entrar na minha vida de uma forma inusitada e pelo modo como ele é nela, você compreende? Voltando a dizer me sentia culpada por somente procurá-lo quando preciso, mas ele tá lá, eu sei que vai estar, mesmo que eu demore meses pra aparecer,  e quando eu conto minhas coisas pra ele o sentimento de alívio repentino sempre aparece, talvez por sempre me perder quando to com ele ou simplesmente por ser ele, e essa sensação de perca por mais estranha e ruim que ela possa parecer, não é, quando digo que me perco quando estou com ele, é porque de alguma forma, me encontro nele ou porque simplesmente esqueço das coisas ao meu redor, sim, mais clichê impossível. Thomas era como se fosse alguém que eu conseguia explicar mas que no momento que eu fosse confirmar essa explicação tudo se esvaísse, é complicado, acho que você entende. Fui por cima dele dessa vez, encostei meus lábios no dele por alguns segundos sem nenhum outro movimento, fechamos os olhos, queria guardar isso antes de levantar e ir embora.

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